A inversão: quando as vítimas se tornam culpadas

Um dos fenômenos mais perigosos existentes em nossa sociedade é a capacidade de inversão do discurso que transforma vítimas em culpados. Um exemplo do que digo ocorreu recentemente no caso da aluna que foi expulsa, e logo depois readmitida à universidade, por usar um vestido curto. Para a universidade a culpa não foi da centena de alunos que a hostilizaram publicamente, mas dela, por se vestir e portar de forma “insinuante”. Infelizmente isso é uma realidade tanto mais visível quanto mais conservadora é uma sociedade. Imaginem o quanto não sofreram as mulheres desse país – tão plural – e o quanto não sofrem ainda hoje em dia em casa, nas ruas, nas escolas e no trabalho.

A inversão é largamente disseminada. Está presente nos fatos mais corriqueiros do dia a dia. É muito comum escutarmos comentários que transferem a culpa para a vítima. Em relação aos assaltos ocorridos nas ruas da cidade isso é mais frequente do que se imagina. Com certeza você já ouviu alguém dizer que em parte dos assaltos a vítima tinha uma “parcela de culpa”. Seja por que andava por um local reconhecidamente perigoso tarde da noite, fosse por sair às ruas usando uma joia ou relógio, o que chamaria a atenção dos bandidos. As casas hoje em dia mais parecem fortalezas com seus muros absurdamente altos e decorados com cercas elétricas e suas janelas tomadas por grades. Isso sem falar no tamanho dos cachorros que em muitos casos nem parecem mais cachorros, parecem mais aberrações da natureza. Ao não transformar a sua casa em uma fortaleza dessas você poderá ser acusado de facilitar a vida dos bandidos. Temo que pelo andar da carruagem em pouco tempo todos nós estejamos condenados a viver em uma prisão disfarçada dessas.

Voltando. O discurso da inversão tem um conjunto de vítimas bem delimitado ao longo da história de nosso país. São as minorias: mulheres, negros, índios, movimentos sociais, trabalhadores, os pobres de forma geral. Pensemos na luta dos Sem-Terra contra os latifundiários. Na luta dos Indígenas pelo reconhecimento de suas terras e por um tratamento digno por parte do Governo. Na luta das mulheres pelo reconhecimento da igualdade, etc. E pensemos também no que geralmente escutamos a respeito das lutas destes, quando dizem, por exemplo, que os Sem-terra e os índios são baderneiros. Muitas vezes os chamam de mal agradecidos, indolentes. Colocar a culpa nos mais fracos sempre foi mais fácil.

Por trás da inversão há algo ainda mais perigoso: a dominação. A cada vez que cedemos a este tipo de discurso paralisamos um pouco as nossas vidas. Pelo menos em relação à segurança, não tenha dúvidas de que há quem ganhe muito com o pavor institucionalizado que toma conta da vida das pessoas nas grandes cidades. A consequência disso tudo é que perdemos muito de nossa liberdade, valor tão caro àqueles que vivem em uma democracia, ou que tentam defender seus valores mais importantes. Comprar esse discurso pode custar muito caro para todos nós. Aceitar facilmente que as vítimas seja culpabilizadas é compactuar com o preconceito, o atraso, a hipocrisia e a mentira.

Add comment Novembro 15, 2009

Sesta: quem dera…

Sinto um pouco de inveja dos castelhanos no que diz respeito a um hábito cultural difundido entre estes povos, muito saudável, tanto para a mente como para o corpo. Falo da sesta. Quando colocamos a palavra sesta no Google surgem diversas matérias falando dos seus benefícios para a saúde. Em Portugal, não na Espanha como poderia imaginar inicialmente, há até uma associação dos amigos da sesta. Fiquei intrigado, com vontade de conhecer um pouco melhor este movimento, e ao mesmo tempo contente, por saber que em algum lugar há um grupo de pessoas se importam com algo do tipo.

Muito embora não seja castelhano e viva nesse mundo “24 horas” conheço este hábito notável da minha vida no interior. Esse foi um dos bons costumes deixados pela colonização ibérica. É muito comum ainda hoje em dia nas pequenas cidades (bem pequenas mesmo), as pessoas tirarem um cochilo depois do almoço antes de voltarem ao trabalho. As lojas fecham, quase tudo para por pelo menos uma hora. Isso ainda é possível, já que tudo ainda é muito perto. Nas cidades maiores a coisa é mais complicada, o tempo do nosso deslocamento pra lá e pra cá é, invariavelmente, descontado das nossas horas livres.

Não acredito nem um pouco nessa história de que o corpo se adapta a dormir menos horas por noite com o passar do tempo. Não acredito mais nisso. Acho que o corpo cobra mais cedo ou mais tarde um preço qualquer por essa aventura de superprodução. Não sei, talvez esteja começando a envelhecer e consequentemente começando a pensar em coisas do tipo.

A sesta deveria ser uma unanimidade. Melhora a vida das pessoas e porque não dizer também que ela melhora a produção de forma geral. É fato público e notório que depois do almoço temos uma queda na produção, ficamos um pouco mais lentos. Quem não volta revigorado para uma leitura depois de uns 20 minutos de cochilo? O trabalho rende mais, os relacionamentos melhoram, enfim, o dia melhora.

Me considero um viciado em trabalho, dedico quase todo o meu tempo a ele e não falo da sesta em detrimento a ele, mas nessa grande divagação, me dou o direito de questionar até que ponto um pouco mais de descanso não poderia contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Nada que leva as pessoas a uma vida de ansiedade pode ser tão bom, tanto individualmente quanto para o coletivo. Imaginem uma sociedade que cada dia mais se transforma em uma pilha de nervos. Sou a favor de uma vida mais tranquila, acho que temos muito mais proveito em seus diversos momentos se estamos tranquilos. Além do que – só pra terminar com uma graça – dormindo um pouco mais teríamos mais tempo para sonhar e sonhando mais, poderíamos com certeza construir um mundo melhor.

Add comment Novembro 14, 2009

A reação necessária

Add comment Novembro 8, 2009

O Tempo em Natal

Vivendo em Natal há quase seis anos, já pude me acostumar um pouco com a dinâmica do tempo daqui. Digo um pouco porque a coisa é complicada. Esse ano, pra ser sincero, já tinha perdido as esperanças de ver o período chuvoso acabar. Andava mesmo perguntando por aí aos mais antigos se no passado já havia ocorrido de o período chuvoso emendar de um ano para o outro. Vai saber. Distraído que sou, do pouco que consegui captar, de Agosto para Setembro as chuvas se vão definitivamente, dando lugar a uma brisa mais forte. Pouco depois entra em cena um calor de rachar. Não é figura de linguagem, é de rachar mesmo. Ontem mesmo parado no sinal, triste com todo aquele calor antes do almoço, olho para um termômetro desses de rua e vejo a marca dos 35 graus. Esse sol todo fica por aqui até mais ou menos março/abril e aí começa a chuvarada de novo. Existem mais particularidades no clima, me perdoem, mas não me dediquei a observá-las a fundo. No início, confesso, gostava muito da chuva, aquela chuvarada toda pra quem nasceu no sertão era uma coisa linda, de tocar o coração, mas pouco tempo depois ela me deixou entediado. Espero pacientemente os dias de sol calorentos do fim do ano, como esses que estamos vivendo por esses dias.

1 comment Novembro 6, 2009

A história das coisas

Desse jeito o planeta não aguenta. Até quando vamos ignorar que o nosso estilo de vida não é sustentável e que a produção de quase tudo que utilizamos desrespeita completamente a natureza? Quando vamos finalmente nos dar conta de que a vida obedece a uma ordem planetária cíclica e que devemos respeitá-la minimamente para que tudo não acabe de uma vez para sempre?

Deixo como indicação àqueles que ainda não conhecem o singelo vídeo “a história das coisas”:

Add comment Outubro 25, 2009

Fome

Até alguns anos atrás, não raramente, os jornais exibiam reportagens sobre os altos índices de desnutrição e mortalidade infantil em nosso país. Não é preciso dizer que isso era vergonhoso para todos nós. Expor as crianças à fome e, conseqüentemente, à desnutrição é uma das formas mais cruéis de exclusão.

Um dia desses comentava com um colega como de uns tempos pra cá essas reportagens praticamente sumiram. Bem, isso poderia ser apenas um sintoma, talvez a mídia tivesse cansado de dar más notícias, mas não. O tempo passou, os ventos começaram a mudar e o trabalho e a luta de muitos finalmente apresentam resultados concretos.

Hoje, ao ler as notícias do dia na internet, me deparo com a seguinte reportagem na página da Folha: Fome Zero reduziu a desnutrição infantil em 73%, diz ONG.

Tomara que logo esse mal seja anulado de uma vez por todas e que a fome dos pequenos seja de outra natureza. Fome de brincar, de correr, de crescer na vida, enfim.

* Detalhe: Hoje é o dia mundial da alimentação. Segundo a ActionAid, mais de 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo atualmente.

* Detalhe: Hoje é o dia mundial da alimentação. Segundo a ActionAid, mais de 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo atualmente.

Add comment Outubro 16, 2009

Feriado e outras coisas

De longe vejo o feriado no calendário, somos privilegiados, três dias livres pra fazer tudo aquilo que não podemos fazer durante a semana. Logo elaboramos planos, traçamos mapas. Penso na praia, no parque que nunca frequento e vez por outra – meio assim – em empreender, mesmo, uma grande organização em minhas coisas: livros, papéis, arquivos no computador e outras coisas do tipo. Chega o feriado e após a realização de algumas tarefas terminantemente necessárias à manutenção do bem público da casa, assumo para mim mesmo o que realmente quero fazer neste feriado. Não quero fazer nada. Nadinha. Quero ficar em casa, lendo bobagens, escrevendo algo, comendo e principalmente dormindo. Dormir horas a fio, despreocupado da vida. Mas percebam, uma atividade de cada vez, que fique claro.

Entretanto, quando desperto, não pude deixar de ver dois fatos que marcaram esses dias e que me chamaram muito a atenção. O primeiro deles a reação de algumas pessoas (próximas e distantes) da própria esquerda, ou simpatizantes a ela, ao episódio da ocupação recente do MST em uma fazenda no interior de São Paulo. E senti um pouco de tristeza e ao mesmo tempo surpresa ao ver que alguns daqueles que pareciam apoiar a luta pela reforma agrária tenham baseado sua opinião imediata apenas naquilo que a grande mídia disse sobre o caso. Acho muito arriscado comprar o velho discurso de que uma imagem vale por mil palavras. Penso que seja justamente o contrário. Uma imagem quando “muito bem explorada” pode dar a entender mil e uma coisas, que “o buraco é mais embaixo” e que tudo deve ser muito bem explicado, antes que se emitam qualquer julgamento de fato.

O segundo foi, ainda, sobre o Prêmio Nobel da Paz concedido ao Obama. Não sei se não entendi bem, ou se realmente estou muito por fora, mas quando soube da notícia me perguntei sobre o que de fato e concreto o Presidente Obama fez pra merecer o Prêmio. Depois vejo uma reportagem em que o próprio diz que aceitará o prêmio como um incentivo. De minha parte penso que, se concedem crédito assim tão facilmente, que tenham, pelo menos, alguma garantia dessas possíveis ações futuras, tão almejadas pelo mundo todo. Esperemos. Tenho muito esperança em suas ações, mas não deixo de registrar que essa esperança já foi bem maior antes e durante o início de seu mandato.

Comecei com o feriado, acho que devo terminar com ele. Não agora, apenas amanhã, às sete da matina. Vou voltar às minhas atividades lúdicas, porque nem só de ler jornais vive o homem.

1 comment Outubro 12, 2009

Epicuro e o Prazer

Alguns seres humanos vem ao mundo e através de suas experiências de vida acabam por prestar um grande serviço a toda a humanidade. Epicuro com certeza foi um deles. Se debruçou, durante a sua existência a descobrir, dentre muitas outras coisas, quais os princípios de uma vida feliz, o que são e de que forma devemos nos relacionar com os desejos e qual o papel da amizade. Parte de sua filosofia foi divulgada através de cartas enviadas a seus seguidores. Abaixo um trecho de uma dessas cartas, que por sorte chegou até nossos dias:

“Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.” (Carta a Meneceu – Sobre a Felicidade, Epicuro)

Essa carta e outros fragmentos, além de uma boa introdução à filosofia de Epicuro podem ser encontradas na coleção “Os Pensadores”.

1 comment Outubro 4, 2009

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Sou potiguar, pai do Gabriel, mestrando em sociologia, designer instrucional... Gosto de escrever e há algum tempo não resisti a tentação de criar um blog. Este mesmo que vós vedes. De quando em vez passo por aqui e escrevo sobre algo que tenha me chamado a atenção, sem muita pressa, sem muito compromisso e sem muita precisão.

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