Os Ninguém – Eduardo Galeano
Reproduzo abaixo um pequeno, porém bastante significativo, texto do autor uruguaio Eduardo Galeano, que com uma sensibilidade que lhe é peculiar retrata a história dos latino-americanos por um prisma diferente.
“As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.”
Fonte: http://www.sociologos.org.br/textos/outros/ninguens.htm
Add comment fevereiro 6, 2010
A Verve
Há pouco mais de um ano venho escrevendo nesta página, como digo na descrição, sem muita pressa, sem muito compromisso e sem muita precisão. Tem sido uma experiência muito boa, não se engane com os longos períodos em que fico sem postar nada. Culpa do tempo. Da falta dele, na realidade. Embora muito pouco divulgado e menos ainda visitado, tenho conseguido atingir meus objetivos. O primeiro deles é ter em média mais de dois leitores (questão de auto-estima, você sabe). Atualmente pelos meus cálculos devo ter uns três, que vez por outra me dão um feedback. O segundo, bem menos ambicioso é simplesmente ter um lugar para escrever sem compromisso, sem cobranças, sem prazos. Acredite, isso é muito bom. Bom também é, de vez em quando, receber um email ou um comentário fazendo referência a algo que postei aqui, seja na própria página ou, como é muito mais frequente, pessoalmente. As opiniões variam. Mas felizmente posso dizer que, de fato, não me jogaram pedras por nada que tenha publicado aqui durante esse primeiro ano. Recebi até um ou outro elogio tímido, um tapinha nas costas e uns três “assim-assim, tá bom”, o que me deixa feliz, em parte. Porque a felicidade completa não é deste mundo.
Add comment janeiro 30, 2010
Cabeças pensantes! À direita e à esquerda.
A defesa de uma visão de mundo, a utilização da palavra em nome dos ideais, e mais que isso, o chamamento à ação, são momentos importantes e sempre dignos de registro quando têm um fim nobre, claro. Mês passado o presidente eleito do Uruguai reunido com intelectuais de seu país discursou. Pediu a todos que contagiassem seu povo com um olhar curioso sobre o mundo. Mujica ambiciona empreender uma revolução educacional em seu país. Transcrevo abaixo um dos trechos que mais me chamaram a atenção em sua fala:
“Se, um dia, lotarmos estádios de gente formada será porque, na sociedade, haverá centenas de milhares de uruguaios que cultivaram sua capacidade de pensar. A inteligência que traz riqueza para um país é a inteligência distribuída. É a que não está só guardada nos laboratórios ou na universidade, mas sim anda pela rua. A inteligência que se usa para plantar, para tornear, para manejar uma máquina, para programar um computador, para cozinhar, para atender bem um turista é a mesma inteligência. Alguns subiram mais degraus do que outros, mas se trata da mesma escada.
E os degraus de baixo são os mesmos para a física nuclear e para o manejo de um campo. Para tudo é preciso o mesmo olhar curioso, faminto de conhecimento e muito inconformista. Acabamos sabendo porque antes ficamos incomodados por não saber. Aprendemos porque temos comichão e isso se adquire por contágio cultural desde quando abrimos os olhos ao mundo.
Sonho com um país onde os pais mostrem a pastagem a seus filhos pequenos e digam: “Sabem o que é isso? É uma planta processadora da energia do sol e dos minerais da terra”. Ou que lhes mostrem o céu estrelado e façam com que pensem nos corpos celestes, na velocidade da luz e na transmissão das ondas. E não se preocupem que esses pequenos uruguaios vão seguir jogando futebol. Só que, lá pelas tantas, enquanto vêem a bola picar, podem pensar ao mesmo tempo na elasticidade dos materiais que a fazem rebotar.”
O texto completo pode ser acessado no sítio da Agência Carta Maior, de onde o trecho transcrito foi retirado.
O texto completo pode ser acessado no sítio da Agência Carta Maior, de onde o trecho transcrito foi retirado.
Add comment janeiro 6, 2010
O semáforo
No dia a dia, quando se fala de uma forma geral dos descasos dos poderes públicos, dependendo de sua gravidade, sempre ouvimos a expressão: “é preciso que alguém morra para que alguma providência seja tomada”. Em relação ao trânsito isso é dito com muita frequência. Juntando os problemas das vias, sejam buracos, falta de sinalização adequada, ou fiscalização, passando à imprudência ao volante, parcela de culpa de parte dos que dirigem, surgem grandes problemas para aqueles que vivem nas grandes cidades. Aqui em Natal e zona metropolitana isso não é diferente, infelizmente.
É uma pena constatar que em alguns casos, ou em muitos deles, a morte de uma pessoa, ou mesmo a de várias, seja incapaz de sensibilizar aqueles que estão por trás da máquina burocrática. O que me chamou a atenção a ponto de escrever estas linhas, foram os sucessivos acidentes ocorridos em um cruzamento mais ou menos perto da minha casa, por onde passo todos os dias. Um dos mais confusos a região. Neste cruzamento, como em muitos outros, uma morte não foi suficiente, nem duas, nem três. Falam em números ainda maiores. O último acidente, com uma vítima fatal foi brutal. Um carro de passeio foi atingido por um caminhão.
A comunidade cobrou, foi até a prefeitura, aos meios de comunicação, fizeram protestos no local. Um mês depois, poucos dias atrás portanto, o semáforo foi instalado. Passo por ele e fico pensando quanto custou a instalação daquele aparelho. Imagino que para a administração pública aquilo deva ter um custo irrisório. Quanto sofrimento poderia ter evitado às famílias que perderam alguém ali. Quanto estresse poderia ter evitado a todos que passavam a pé ou com seus carros por ali diariamente. Enfim, são questões.
Add comment janeiro 4, 2010
O difícil jogo das palavras (Ainda sobre Vidas Secas…)
Me empolguei com a leitura de Graciliano Ramos nesse fim de ano. Sua obra da margem a muita coisa compõe um universo vasto. Por ser nordestino e ter nascido no semi-árido me identifico muito com suas palavras, mas não apenas por isso. No texto anterior falei do episódio da morte de Baleia, que diante de tantos outros episódios dramáticos poderia parecer menor. Agora me meto a falar um pouco sobre como a cidade deixava claro a exploração à qual Fabiano e sua família estavam submetidos.
No sertão Fabiano era rei. Com sua vestimenta de vaqueiro lidava com a natureza com toda a intimidade. Era enorme, tinha domínio sobre a paisagem e sobre as criaturas que nela viviam. Crescera na caatinga, esse era o seu universo. Na cidade a coisa mudava de figura. Se sentia acuado. Os homens que ali viviam o assustavam, usavam palavras complicadas e sempre que ele se envolvia com as pessoas de lá acabava se dando mal. Foi assim no caso em que se meteu a jogar na venda com o soldado amarelo e acabou preso. Era sempre assim na relação com o seu patrão, sempre se dava mal.
A cidade tornava visível para Fabiano as cadeias que o prendiam a uma relação social de exploração. Fosse o querosene batizado com água que lhe vendiam na bodega, fosse o imposto cobrado pelo fiscal da prefeitura que lhe tirava uma parte do lucro sobre a venda animal que ele cevou e de quem acreditava ser o único dono. Não entendia a sua relação com o Governo. No seu entender era algo muito grande e ele não queria confusão com tal entidade. Melhor não se meter. Na sua cabeça o Governo não podia ser algo ruim, entretanto, suas relações com seus representantes locais eram as piores possíveis.
Percebia que as palavras tinham um poder muito grande nessas relações, seja com o Governo, seja com o patrão ou com o dono da venda. Fabiano não dominava as palavras usadas por aqueles que viviam na cidade. Aquelas palavras difíceis embaralhavam suas ideias, também não tinha intimidade com os números, o que dificultava ainda mais as coisas. Sabia que era enganado, que sempre era colocado para trás, mas não tinha como se defender com as mesmas armas com as quais era atacado. Mantinha uma relação de amor e ódio com elas. Em determinados momentos as admirava, isso fica claro em suas lembranças de Tomas da bandoleira, homem que tinham intimidade com os livros e sabia de tantas coisas. Em outros sentia raiva, principalmente quando pensava de sua condição de vida.
A cidade não lhe dava proteção, não lhe dava garantias. Era um ambiente hostil e complicado, no qual pressentia que poderia ser atacado a qualquer momento. Às vezes pensava consigo mesmo se não seria importante ter domínio daquele universo, mas recuava, aquilo tudo lhe parecia muito complicado. Pensava em viver por toda sua vida na caatinga, em transmitir aquilo que melhor sabia fazer aos seus filhos: a arte de ser vaqueiro, lidar com o gado em com a terra.
Mas como fosse impossível viver com a instabilidade do clima ora chuvoso ora muito seco, tornando-se insustentável mais uma vez a vida no único lugar onde aprendera a viver, era preciso mais uma vez marchar rumo ao desconhecido. Na fuga, desfecho da jornada sem desfecho. como a de muitos sertanejos na vida real, Sinhá Vitória atina para a esperança de que os filhos não tenham a mesma sorte de serem vaqueiros, sertanejos. Espera que eles cresçam em uma cidade grande e que possam frequentar a escola. Assim, quem sabe, poderiam ter uma sorte diferente.
A cidade parecia inevitável, irresistível. Não achava o melhor para si pois não queria mudar o seu estilo de vida, não queria deixar suas tradições e sua forma de ser. Mas ao mesmo tempo, era como se abandonar aquilo tudo fosse inevitável, daí a projeção de sua esposa para o destino de seus filhos: eles provavelmente teriam que aprender a viver em um outro mundo e quem sabe esse mundo nem fosse tão ruim assim.
1 comment janeiro 1, 2010
A Morte de Baleia
O episódio da morte da cachorra baleia é um dos mais emocionantes da obra Vidas Secas de Graciliano Ramos. Alguém que tenha lido aquele capítulo sem sentir sequer um aperto no peito pode ser considerado um completo insensível. Baleia era uma das personagens centrais da obra, considerada por todos um membro da família. Em momentos de grandes dificuldades enquanto a família andava pela caatinga em busca de um lugar melhor para viver ela chegou a salvá-los da fome com a suas habilidades para caçar os preás que se escondiam na caatinga. Quando chegaram na fazenda e conseguiram um pouco de estabilidade baleia ajudava Fabiano a aboiar o gado e pastorear as cabras. Divertia a família, sonhando sempre com os preás e o que havia nas panelas, mesmo sabendo que sempre lhe restavam os ossos.
Um dia Baleia apareceu doente. Seu pelo começara a cair, de repente ficou mais magra, os ossos das costelas se tornaram mais visíveis por sobre a pele avermelhada. Temendo que o bicho sofresse de hidrofobia Fabiano teve que tomar uma difícil decisão: matá-la antes que ela piorasse e colocasse a saúde dos meninos em risco, pois não tinha garantias de que ela não pudesse morde-los a qualquer momento. Aqui mais uma vez entra em cena a genialidade de Graciliano. Fabiano, personagem principal, está o tempo todo lutando pela sobrevivência da família e tem que fazer escolhas duras, muito duras e executar as ações mais penosas.
Acuado como sempre pelas intempéries , tendo em mente o que Baleia representava para a família Fabiano pegou a espingarda e foi executar a sua difícil resolução. No quarto, Sinhá Vitória angustiada segurava os meninos, tentando tapar-lhes os ouvidos, fazendo o possível para tornar aquele momento menos difícil, menos doloroso para todos. Fabiano que sempre teve que fazer escolhas difíceis cumpriu sua missão, mas esse momento não lhe saiu da cabeça por muito tempo, talvez nunca tenha saído. Com o passar do tempo, sempre que se via pensando em suas atitudes Fabiano lembrava com pesar do triste fim que teve Baleia.
O que poderia representar a morte de uma cachorra diante de tantas dificuldades? Bem, Fabiano que pelo meio da história, fazendo um balanço de sua condição, se perguntava se era um homem ou um bicho não conseguia entender o porque de tantas desventuras. Era humano demais. O sofrimento físico causado pela seca, as humilhações sofridas na cidade, a luta contra a natureza feroz que devorava a vida na caatinga e contra os próprios homens que o exploravam, não foram capazes de lhe roubar a sensibilidade. Fabiano fez o que era preciso fazer sempre, mesmo tendo que fazer as escolhas mais duras. Seguiu o que achava correto, mesmo que essas escolhas lhe causassem grandes sofrimentos.
Add comment dezembro 25, 2009
Por aqui…
Para mim, essas são as duas melhores semanas do ano. Nesse período parece que a alma se renova, o encerramento de um ciclo, as comemorações típicas da época, a sensação de dever cumprido e os planos para uma nova jornada fazem dessa uma época muito especial. Mas antes disso, como não podia deixar de ser, muito trabalho. Deixei esse espaço meio de lado, não por falta de inspiração ou vontade. Mas nem tudo está perdido, com a diminuição dos trabalhos nessas semanas intermediárias entre o ano que se vai e o que chega, pretendo voltar aqui mais vezes, pra contar uma e outras histórias.
Add comment dezembro 25, 2009
Uma vez Flamengo…
Quando chegamos a este mundo já encontramos um conjunto de costumes que nos são transmitidos por nossos pais, familiares, por todos enfim. Esses costumes acabam por definir um pouco quem somos, constituindo boa parte de nossa identidade, ou do que não somos, se a partir de certo momento passamos a negá-los. Quando cheguei neste mundo, há algum tempo, herdei entre muitas outras tradições o habito de torcer por um time de futebol. Era início da década de 1980, mais precisamente o ano em que a mágica Seleção Brasileira do técnico Telê Santa, Zico e companhia havia sido eliminada na copa do mundo. Mal cheguei e ganhei uma camisa do Flamengo.
A década de 1980 foi fantástica para o clube. Meu pai, grande torcedor, vibrou muito com os títulos conquistados, entre eles uma taça libertadores, um mundial interclubes (1981), e quatro campeonatos brasileiros (1980, 1982, 1983 e 1987). Recebi o kit torcedor e como não podia ser diferente entrei na torcida. Entretanto, não acompanhei as maiores glórias do clube, era muito pequeno. Lembro vagamente de ter assistido o jogo da final de 1992, quando o flamengo foi pentacampeão. De lá pra cá o clube não andou bem das pernas, conquistando títulos de importância menor. E consequência disso, talvez, enraivado me afastei da torcida e do futebol de uma forma geral, principalmente nos últimos anos, embora nunca tenha deixado de acompanhar o esporte. Não fazia muito sentido torcer por um time que vivia de glórias do passado.
Mas esse ano, com a formação da segunda parte do campeonato brasileiro, o time me chamou a atenção. Minha e de meio mundo, diga-se de passagem. Como diziam, estava jogando por música. A volta de Adriano, a entrada de Petković e a ascensão de Andrade, ídolo dos melhores tempos, à frente do time, criaram um acontecimento em tanto. E eu, que havia me acostumado a assistir futebol pelo bom jogo, sem muita empolgação, voltei a ver meu time jogar bem e voltei a torcer por ele como antigamente. Espero que esse trabalho do clube não se perca e que esse seja o início de um grande período de conquistas.
O Flamengo extrapolou ao longo dos anos os limites geográficos do Rio de Janeiro é um time brasileiro, literalmente. Mobiliza a atenção de milhões de pessoas quando joga, bem mais que os milhares de torcedores que frequentam os estádios. Toda essa torcida andava sofrida há muito tempo. Muitos desses torcedores nasceram depois do título de 1992 e sequer tinham visto o seu time ser campeão brasileiro. É a força da tradição, que gera amor e ódio, que afasta, mas também aproxima, contudo nunca deixa de todo indiferente, porque como diz o refrão: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo…”
Add comment dezembro 13, 2009



