Da arte de viver a própria vida

Não há formula, método ou programa pronto que ensine uma pessoa a viver da melhor forma. Entregar-se a um modelo pronto, seja ele qual for, não é apenas uma bobagem é falta de coragem também. Seguir a trilha batida por outros é transferir responsabilidade e abrir mão de viver a própria vida.

Vida é movimento. Estar vivo significa construir permanentemente, estar pronto para as mudanças, sejam elas boas ou ruins, criando sempre as melhores soluções. Assim, penso que o melhor modo de viver sempre será aquele feito por cada um, com base nas suas experiências individuais e na sua relação com o mundo. É um método difícil, que exige uma boa dose de trabalho, audácia e responsabilidade.

Andei pensando nessas coisas neste fim de semana ao reler um dos capítulos do livro Walden de Henry David Thoreau, do qual destaco e seguinte trecho:

“Não gostaria que alguém adotasse meu modo de vida por motivo nenhum; pode ocorrer que antes que o aprenda, eu já tenha descoberto outro para mim, e além disso desejo que haja no mundo tanto quanto possível pessoas diferentes. Gostaria, sim, que cada um se empenhasse em descobrir e seguir seu próprio caminho, em vez do trilhado por seu pai, sua mãe ou seu vizinho. Que o jovem construa, plante ou viaje, contanto que não seja impedido de fazer aquilo que, segundo ele, gostaria de fazer. Somente de um ponto de vista matemático é que somos sábios, como o marinheiro e o escravo fugitivo que não perdem de vista a estrela Polar. Esta lhes serve de guia pela vida toda. Podemos não chegar ao porto dentro de um determinado prazo, mas devemos nos conservar na rota certa.” (p.30-31).

Com certeza não é a forma mais fácil, mas para mim representa Liberdade, Autonomia e Autossuficiência, valores que prezo muito.

Um dia diferente em 1988

No ano de 1988 eu estudava a primeira série do que hoje se chama ensino fundamental. Todos os dias saía de casa com o meu pai logo cedo e juntos cruzávamos a pequena cidade onde vivíamos eu rumo a escola, ele para o trabalho. Antes de começar a aula nos sentávamos no banco da praça em frente à escola e conversávamos uns bons minutos. Inquieto e curioso que era naquela época, aproveitava aqueles momentos matinais para perguntar de um tudo para ele.

Num desses dias, que tinha tudo para ser um dia comum, saímos de casa, perfizemos nosso trajeto habitual e eis que, em alguns minutos, estávamos mais uma vez sentados no banco da praça a conversar enquanto portão da escola não abria. Neste dia, pouco depois de chegar, olhando para a rua, do banco da praça, vejo aquilo que me pareceu algo de ficção científica, nunca antes visto por aqueles olhos tão jovens quanto curiosos.

Meu pai, que para mim era como uma enciclopédia ambulante, começou a me explicar do que se tratava aquele objeto metálico de forma arredondada que surgia imponente por cima de uma das casas, apontado para o sempre azul céu do sertão. Tratava-se de uma antena parabólica. Um tipo de antena que possibilitava captar sinal direto de um satélite, que estava lá no espaço. Naquela época, nossa televisão colorida recém-comprada exibia uma imagem chuviscada/fantasmagórica de uns dois canais de TV, captados sofridamente por nossa anteninha espinha de peixe. Bom, esses dois canais já eram mais que suficientes para os embates dos sábados à tarde. Eu querendo assistir o sexto episódio de Jaspion da semana (geralmente repetido), ele querendo assistir o futebol.

Obviamente, é escusado dizer que os adultos sabiam do que se tratava e que a chegada do referido equipamento provavelmente não lhes causou maior impacto, senão o desejo de ter uma igual em suas casas, para assistir com melhor definição o futebol no fim de semana. Imagino todo esse tempo depois, que benesses domésticas não ganharia o chefe de família que comprasse uma dessas permitindo a todos em sua casa assistir a novela das oito com uma qualidade nunca antes vista.

O fato é que fiquei aquele e muitos dos dias que se seguiram a imaginar o que representava aquele acontecimento. Eu que ainda não havia visto nada parecido me deparava com algo ali, na nossa cidade, que conseguia captar um sinal de televisão vindo lá do espaço. Era simplesmente incrível. Depois daquilo, suspeitava que qualquer engenhoca tecnológica poderia aparecer lá na nossa cidade. Naves espaciais, máquinas de teletransporte ou de viajar no tempo, etc. Enfim, todas aquelas coisas que eu via nos seriados japoneses e filmes da sessão da tarde que heroicamente chegavam até a nossa casa através da nossa, já referida, antena espinha de peixe.

Relembrar episódios como esse, e contá-los a meu pequeno hoje em dia, me fazem pensar que a felicidade não está nas coisas grandiosas, mas nos detalhes, nas pequenas coisas do dia a dia ao lado de quem realmente gostamos, como sentar no banco da praça e falar das novidades vindas do espaço.

Tudo que é muito…

Talvez seja impossível precisar o momento no qual a fofoca passou a fazer parte da vida humana. Curioso que é, o ser humano sempre andou por ai a coletar informações “importantes” sobre os outros. De certo, esse ato vai desde uma inocente conversa de portão entre duas donas de casa, até os segredos – mais cabeludos – de Estado. O fato é que saber sobre o outro é também uma forma de poder, que, ao que tudo indica, sempre foi utilizada, seja como passa tempo inocente, seja como forma de obter vantagens sobre aquele que tem a sua privacidade invadida.

Momentos de futilidade, fofoca, e compartilhamento de fatos sem grande relevância, no fundo, acabam tendo sua importância. Afinal, não sejamos utilitaristas até as últimas consequências. Somos humanos e a sociabilidade é fundamental para todos nós. O que não é fundamental, pelo menos para mim, é o exagero, esse mal que acomete os homens desde tempos tão remotos e difíceis de precisar quanto aqueles no qual floresceu a fofoca.

Sem dúvida alguma esse saber da vida dos outros foi potencializado com as ferramentas da internet. Venha, encontre seus amigos dos tempos da escola, mantenha um contato mais próximo com seus colegas de trabalho, conheça pessoas interessantes, compartilhe suas experiências com todos. Esse é o apelo genérico ao qual recorrem as mais variadas redes sociais para fisgar seus usuários. Seria interessante, ou pode ser interessante, mas apenas por algum tempo. Particularmente, fiquei de saco cheio de tanta exposição. É comovente encontrar aquele seu grande amigo que você não via desde a sétima série, trocar umas ideias, ver algumas imagens suas atualmente. Mas, francamente, não me interesso em saber onde esse amigo jantou ontem, muito menos o que ele comeu nesse jantar.

Essa exposição meio descontrolada da vida particular, não apenas para os conhecidos, mas para qualquer pessoa que deseje ter acesso, para o bem ou para o mal, me deixa um tanto quanto incomodado.

Outra coisa que me motivou dar um tempo ou pelo menos reduzir bastante a frequência com que utilizo as redes sociais “da moda”, foram as insistentes tentativas, de pessoas muito bem intencionadas, a me converterem à suas religiões, causas políticas, ou simplesmente por me tentarem convencer de uma ou outra ideia preconcebida que, sinceramente, achei que já havia caído em desuso desde o fim da idade média. Não se trata de intolerância, tenho uma paciência enorme para escutar argumentos, sejam eles contrários ou não ao que penso, porque nunca tive vergonha de mudar de ideia sempre que achei, por força da razão, que o deveria fazer.

Por outro lado, admiro muito o espírito combativo de alguns amigos que conseguem tempo, sabe-se lá de onde, para refutar, mostrar com clareza seus pontos de vista sem excessos e sem exageros e que em virtude disso, acabam por constituir, nesses espaços, exemplos do pensamento livre, humanista e de esquerda.

Diante desse meu estado de espírito atual, que posso nomear de enfado, mesmo sendo defensor das redes sociais e acreditando que elas sejam um importante espaço de debate, resolvi diminuir minhas atividades nelas. Provavelmente volte logo, mas por enquanto, estou tirando umas férias desse excesso de sociabilidade. Afinal, temos liberdade de escolher.

Um fim de tarde de domingo

Sem muitas ideias abro o editor de texto no fim da tarde de domingo. Como não fosse possível deixar de registrar que este aparente breve mês de fevereiro, tornou-se uma longa espera, com direito a más e boas notícias; e até mesmo, com a prorrogação dramática de outras.

Tento seguir a lógica do pensamento estóico, que diz que não devemos abalar nosso estado de espírito seja por bons ou maus acontecimentos. Mas controlar a ansiedade em alguns momentos é realmente difícil.

Não falo dos fatos, que esses não interessam senão a mim, mas deixo registrado o estado de espírito, que como sempre é de luta e de tentativa de melhora independente dos acontecimentos.

Interagindo sempre

Há quem diga que a internet veio para acabar com as relações interpessoais, que os humanos cada vez mais vão interagir apenas com as máquinas, que isso é uma catástrofe irreversível que nem os filmes de ficção científica mais ousados conseguiram prever décadas atrás…

E se não for bem assim?

Bem que poderíamos deixar de ser catastróficos com o que é novo e pensarmos que a internet ao invés de tolher a relação entre as pessoas, pode é ampliá-las. Por exemplo, no mundo atual, vivendo em uma grande cidade é bem provável que você não conheça seu vizinho, mas, com certeza, você conhece e interage com pessoas de vários pontos do país, talvez até de lugares distantes do mundo através da rede.

Na verdade, há um componente novo nas relações estabelecidas através da rede: a liberdade. As relações no mundo virtual continuam sendo relações humanas obviamente, entretanto, dificilmente alguém se relacionará com pessoas das quais a companhia não lhes agrada. Diferentemente das relações estabelecidas no ambiente familiar ou no trabalho, por exemplo, das quais geralmente não se pode fugir e que por vezes pode ser difícil de enfrentar para alguns.

Conviver com os outros é uma necessidade básica dos humanos, no mundo das redes o lugar de conversar, interagir e compartilhar sentimentos são as redes sociais, os comunicadores instantâneos, etc.

O fato é que o desenvolvimento dessas novas ferramentas de comunicação tem mudado profundamente a forma de interação entre as pessoas, para o bem e para o mal.

Lendo Dostoiésvki

Nos últimos anos, meio sem querer, acabei criando uma tradição nesse período de fim/início de ano, a de ler uma obra de Dostoiévski. Há uma boa explicação para isso, suas obras costumam passar facilmente das 700 páginas, o que complica um pouco conciliar sua leitura com as atividades do dia a dia. Nessa brincadeira li nos últimos anos, “Crime e castigo”, “O Idiota” e “O jogador”, que tem o volume bem menor que os citados, mas nem por isso é menos genial.

O velho Dostoiévski tem, como poucos autores, a incrível capacidade de envolver o leitor em suas histórias. Para quem inicia em sua obra há nos primeiros capítulos uma certa dificuldade com os nomes russos e suas variações, mas nada que um pouco de insistência não possa vencer. Depois você já se envolveu na história e aí o difícil é largar o livro.

O que mais me atrai em seus livros é a descrição apurada da personalidade das suas personagens. A partir delas as tramas ganham forma, como uma grande teia, como um tecido espesso e bem trabalhado, que se forma a partir de fios finos e frágeis. Ao longo de cada livro, conhecemos bem a personalidade de cada uma e como suas ações pouco a pouco vão se fundamentando.

Nada acontece por acaso, todos os acontecimentos importantes são cercados por um conjunto situações e de sentimentos muito bem detalhados. O autor descreve como as ações se constroem pouco a pouco na cabeça de cada um, a partir do contexto vivenciado, a partir do lugar social em que estão inseridos e como após cada acontecimento, os costumes e valores interferem nas ações individuais, indo do cálculo que precede cada ação até o desenrolar das suas conseqüências.

Dostoiévski dá alma às personagens, fala do individual, mas de forma universal. Em sua forma de escrever pouco importa se suas histórias se passam na Rússia do Século XIX ou em qualquer outra parte, pois, o autor ao retratar os valores humanos e os dilemas vivenciados individualmente, ultrapassa as fronteiras espaciais e também, porque não dizer, temporais, dialogando com pessoas de todas as épocas.

Se você ainda não leu, vale a pena ir a uma biblioteca ou procurar alguma de suas obras na internet. Existem, também, algumas comunidades no Orkut nas quais se discutem a obra do autor. #ficaadica

P.S. Esse texto foi reencontrado numa pasta do meu HD, escrito no fim de 2010, achava que já o tinha postado aqui, na verdade não tenho certeza. Reli rapidamente, aparei umas duas arestas e foi.

Férias para que te quero…

Férias são imprescindíveis na vida de um ser humano. Por mais que se goste de trabalhar, e por mais que se goste de fazer isso a maior parte do tempo, chega uma hora que o corpo e a mente pedem um descanso.

No mês de dezembro passado aproveitei um mês de férias como nunca. Não sei quando terei a oportunidade de ter outras férias tão boas quanto essas. Não viajei para o exterior, não gastei o que não tinha. Ao contrário, aproveitei as coisas simples da vida. Coloquei a família no carro e viajei pelo interior do nosso Estado. Encontramos parentes e amigos que há muito não víamos, visitamos lugares marcantes para a nossa infância e nesse percurso nos divertimos muito.

Esses trinta dias me fizeram voltar, com mais vontade de trabalhar, estudar e voltar à rotina de que tanto gosto.

Um detalhe interessante dessas férias é o fato de quase não ter tirado fotos. Na realidade não lembro de ter feito se quer uma única imagem. Apenas algumas foram feitas por minha mulher. Acho que aquelas imagens não clicadas vão ficar registradas no melhor lugar possível, em nossas memórias.

Então, é natal?

Até onde entendo, as comemorações natalinas têm sua origem na tradição cristã, como momento de comemorar o nascimento de Jesus. Logo, deveria ser um momento de reflexão, paz e alegria junto àqueles que mais amamos e junto às nossas comunidades.

Ao longo do tempo, assim como quase tudo que conhecemos, essa tradição foi incorporada aos modos e costumes do regime capitalista – aquele sistema que visa o lucro e dá personalidade a objetos inanimados, tornando-os muitas vezes mais importantes que as pessoas – hoje em dia o natal representa, em grande medida, um momento de exacerbação do consumo.

O apelo pelo consumo afeta principalmente as crianças, que desde cedo aprendem que esta época do ano é o momento de ganhar presentes. Vejo com tristeza muitos pais alimentando esse sentimento que não gera outra coisa a não ser uma ambição desenfreada nos pequenos, desde a época inicial de suas vidas.

Nada contra dar presentes, mas acho que o consumo não deveria ser o ápice dessa época. Vamos valorizar mais as pessoas e não os objetos, valorizar mais a reflexão que a ambição, valorizar mais o desapego material que o consumismo.

Mesmo não sendo religioso, gosto da tradição do natal, principalmente nos momentos em família, dos reencontros, das festas e da comilança também. Sobretudo, acredito que essa semana entre o natal e o ano novo seja o momento de refletir e fazer um balanço sobre tudo aquilo realizado nos doze meses que findam.

A partir desse ponto de vista, desejo a tod@s um ótimo Natal.

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Em tempo: Ainda sobre o Natal…

Bem que poderíamos fazer dos festejos do natal algo mais próximo da nossa cultura. Nada de papai Noel com roupas do ártico, nada de neve artificial, nem daqueles filmes americanos bobos.

Quanto à árvore de natal, para aqueles que fazem questão, ao invés do patético pinheiro de plástico, sugiro enfeitar um mandacaru ou uma macambira. O que acham?